Em poucas palavras:

Where in the World is Loira do Banheiro é um mapa interativo dos lugares mal-assombrados da cidade de São Paulo. Para adicionar sua própria história, clique duas vezes onde gostaria de fazer a marcação (há um campo de busca de endereço no canto baixo-esquerdo do mapa, para ajudar a encontrar o lugar), e aparecerá um marcador vermelho; então preencha o formulário abaixo do mapa.

Em mais palavras:

Quando eu era criança, eu ouvi, certa vez, uma babá me contar uma história de uma espécie de besouro que devorava cérebros humanos. O besouro invadia o hospedeiro pelo ouvido - é, a princípio, bastante pequeno, mas crescia conforme se alimentava, e acabava por ficar imenso (e ela indicava, com os dedos, o tamanho que o besouro era capaz de chegar; era realmente assombroso). Ela citava o caso de alguém que tinha sido vítima do maligno besouro, e a história me impressionou bastante.

Anos mais tarde, lendo The Vanishing Hitch-Hiker: American Urban Legends and their Meanings, de Jan Harold Brunvand, descobri que a lenda que ouvira na infância é também comum nos Estados Unidos. Mais do que isto, Brunvand conseguira traçar a sua origem: a lenda começou com o explorador John Hanning Speke, que no começo do século XIX partiu em busca da nascente do Nilo. Um inseto africano, certa noite, entrou em seu ouvido; e Speke, irritado, matou-o de forma que os restos do inseto acabaram se enfiando ouvido adentro, até os tímpanos. De volta à Inglaterra, o explorador teve que se submeter a cirurgias para retirar os últimos restos do inseto, ainda alojados por lá, e acabou por ficar surdo daquele lado; mas a história dos terríveis insetos africanos, que invadem os ouvidos de exploradores incautos, atiçou a imaginação do público vitoriano. E a lenda foi crescendo e se propagando, até chegar, de alguma forma, até aquela moça criada no interior do Goiás, não muito letrada, que me passou a história adiante - mais de cento e cinquenta anos depois.

O mapeamento do folclore urbano, a investigação de suas variantes e peculiaridades locais, dos possíveis padrões: este site se propõe a ser uma pequena e divertida contribuição a esta empreitada. O mapa apresenta lugares e histórias mal-assombrados da cidade de São Paulo, e convida os visitantes a adicionar também as suas histórias. As histórias podem ser relatos pessoais; podem ser casos que aconteceram com amigos, ou, como é tão comum, com amigos de amigos; podem ser histórias notórias de assombrações, já documentadas em outras partes, ou podem ser absolutamente originais. Sinta-se à vontade: ninguém aqui vai duvidar do que você tiver para nos contar.

Diversos teóricos especularam, seguindo Mcluhan, que a Internet - e os novos meios de comunicação em geral - propiciam um retorno à Oralidade em algum sentido, à prática comunal e não-autoral de contar histórias. E se o conto folclórico é a forma da narrativa oral por excelência, o relato de casos sobrenaturais é o seu maior gênero. Mas uma diferença crucial, agora, é que esses relatos podem ser buscados, indexados, catalogados - e, dispondo-os em um mapa, poderemos partir à caça de padrões, enquanto o espaço urbano se reveste de novos significados.

Alguns estranham o nome cômico dado ao projeto (uma referência ao game clássico Where in the World is Carmen Sandiego, combinada com a famosa lenda urbana da "Loira do Banheiro"). A ambientação lúdica serve para lembrar outro aspecto do relato sobrenatural: que, ao contrário de outros mapas semelhantes, que se dedicam a divulgar informações factuais sobre os lugares marcados, a história sobrenatural sempre terá, ao menos, uma parcela de ficção. Estas histórias nos mostram tentando lidar com o improvável e o inesperado, preenchendo imaginativamente as lacunas da nossa percepção, mostram nossos medos e anseios, nossa esperança reconfortante em uma ordem maior e em uma vida após a morte. Ao mesmo tempo, esta exploração de uma fronteira facilmente se empresta ao burlesco, ao cômico e inusitado. E nossa opinião é que isto acontece não por acaso, mas por uma espécie, por assim dizer, de necessidade.

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(Créditos: Agradeço a Kauê Friedrich pelo desenho e a Márcio Ikematsu pelo lay-out. Boa parte do código foi adaptada de um exemplo na documentação do Google Maps API)